Nossas crianças e a nossa (des)validação emocional

Nossas crianças e a nossa (des)validação emocional

Nossas crianças e a nossa (des)validação emocional

 

É difícil refletirmos sobre qualquer assunto voltado às relaçãos pais e filhos, especialmente nesse ano de 2020, sem considerarmos tudo o que estamos -todos-, adultos e crianças, experienciando em relação à pandemia… Quantas mudanças na forma de nos relacionarmos e quantas adaptações tem sido necessárias, não é mesmo?

 

Todas as experiências adversas que temos vivido, em especial nos últimos meses, traz à tona a reflexão sobre temas do mundo infantil ou adolescente que repercutem na vida adulta. São temas, situações e/ou dificuldades enfrentadas na infância que, às vezes podem passar despercebidos e aparecem como sintoma ou, minimamente, como memórias de dor e sofrimento na vida adulta. Aqui falamos sobre a validação emocional, que envolve reconhecer e aceitar sentimentos e emoções de outra pessoa sem que necessariamente  concordemos com ela.

 

Não quer dizer que sentimos do mesmo modo, ou que concordamos com a forma da pessoa perceber o mundo ou compreender as pessoas, mas validamos o que ela sente. Para simplificar, pode-se pensar na situação de uma criança que chora. Podemos considerar que o motivo que leva a criança a chorar seja bobo, sem importância (e vale lembrar que algumas crianças são mais chorosas do que outras. Isso é um fato, mas é assunto para outro texto); mas ao dizer “não é nada”, “não é motivo pra chorar”, ou “engole esse choro”, é como dizer à criança que sua dor não existe, ou que não é importante.

 

Quantos de nós, adultos, já ouvimos isso quando crianças, não é mesmo? Ainda, não raro, ouviremos de alguém “Ah, mas isso me fez forte!” ou “Mas eu não morri!” Poderíamos pensar em como teria sido essa história se o acolhimento estivesse presente, ou em como efetivamente essa pessoa se sentiu quando buscava acolhimento e teve que ser forte por si mesma, independente de ter recursos emocionais suficientes para isso. Estamos falando de crianças, lembram? Vale considerar ainda, que somos diferentes e precisamos ser compreendidos naquilo que sentimos! Lembram das crianças mais chorosas que outras?

Vamos pensar em uma situação bastante comum na infância, quando uma criança que cai, esfola o joelho e, sentindo dor, busca o socorro de um adulto e ouve a malfadada frase “Isso não é nada”… Como assim, não é nada? Quem somos nós, adultos, para dizermos que a dor da criança não é doída o suficiente? Só porque não doeu em nós? Ou porque se nós, adultos, sofrêssemos aquela dor, seria uma “dorzinha”? É quase dizermos que “Não! Não! Essa dor não dói! Nem é dor!” Que papo mais louco, não? Ok, não é preciso acionar o 911 para isso! Rsrsrs… Mas as mães leitoras desse texto lembrarão do “mágico e poderoso poder curativo do beijo da mãe no machucado do filho” … Quanto conforto naquele afago da mãe (e pode ser qualquer adulto que acolha a criança) que diz “eu sei que está doendo, vai passar. Até lá, eu estou aqui contigo!” É o gesto que, mais do que curar a dor física propriamente dita, cura a necessidade de acolhimento que a criança expressa no momento. O mesmo vale quando o medo que os pequenos sentem “nem é pra tanto” … Mas o medo é dele, não meu. Como posso dimensionar que é pra tanto ou não? Quando negamos o que a criança sente (é a desvalidação emocional), favorecemos o sentimento de inadequação no outro e não ajudamos a criança a estabelecer a diferença entre as emoções positivas ou negativas, entre o prazeroso e o que provoca dor.

 

Deste modo, a criança pode crescer percebendo a si mesmo como errada no ambiente, porque não consegue interpretar adequadamente o que sente, o que vivencia (e isso, nós, psicólogos ouvimos muito dos adultos que nos procuram). Ou quando o adolescente, vivendo a dor de uma decepção amorosa (quem nunca?), dizemos: “Esquece! Outras virão”, ou “Amanhã, você nem lembra mais, igual a ele tem um milhão no mundo”… Ora, pode ser que amanhã, de fato o(a) jovem se reapaixone e tenha esquecido a dor desse amor, mas hoje, dói! E se dói, precisa ser validado! A partir de situações como essa, mais difícil se torna lidar com isso. Às vezes, a criança ou o adolescente só precisa sentir-se compreendido e, antes, respeitado frente ao que sente. Do contrário, educamos para a anulação das emoções, o que na adolescência e vida adulta, pode ser muito prejudicial e mesmo perigoso!

 

A gente só é capaz de medir a intensidade da dor que sentimos na nossa própria pele. O resto, é mera especulação! É assim também na vida adulta, mas quando se trata de uma criança, validarmos sua emoção é algo de grande relevância para a construção do auto-reconhecimento das emoções e até mesmo para o desenvolvimento da empatia. Quando eu digo para a criança que eu entendo que ela está com dor, chateada, triste ou com raiva, eu estou dizendo que ela está autorizada a sentir o que sente! Porque afinal, ela sente! Ponto!

 

Ao validar a dor do outro, reconhecemos que mesmo que não doa em nós, pode doer nele, o que favorece a expressão emocional, cada vez mais adequada. Quando dizemos à criança que entendemos sua dor, ensinamos que ela pode ficar triste ou braba, porque afinal, sentir tristeza, raiva ou frustração definitivamente, não é errado. A grande questão, mesmo no mundo adulto, é o que fazer com isso. Pode ficar brabo porque o irmão pegou o brinquedo sem pedir? Claro que pode! Agoooora… O que fazer com isso, são outros 500! Pode brigar, bater, ofender? Claro que não! Aí, temos uma importante oportunidade para desenvolver práticas de respeito, arrependimento, compaixão, empatia, reparação.

 

E isso faz uma diferença enorme na vida adolescente e adulta, pois vamos desenvolvendo nas crianças o exercício de refletir sobre as emoções, delas e dos outros! Quantos de nós, não esperamos que alguém que nos diga, vez ou outra, que está tudo bem não nos sentirmos 100% em 100 % do tempo, não é mesmo? Ao trabalharmos a validação emocional, favorecemos a noção de empatia, palavrinha fashion hoje em dia, mas tão pouco, verdadeiramente, praticada nos dias de hoje… Reconhecendo o que sentimos, é mais fácil dimensionar o que realmente vale à pena se incomodar na vida. E esse aprendizado levamos pela vida afora, tanto individualmente quanto em relação ao outro.

 

A pergunta que faço é “isso é mesmo tão ruim e definitivo, a ponto de tirar a minha paz e estragar o meu dia?”(outro exercício possível de fazermos com os pequenos) ou apesar da dificuldade, frustração ou raiva momentânea, ainda assim,  é possível manter a alegria de viver? Fica o questionamento, na tentativa de sermos mais acolhedores e menos juízes. E que possamos construir mais pontes e menos muros entre nós!

 

 

 

 

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